sexta-feira, 31 de março de 2017

Amor perfeito



A brisa incomodava-lhe as pétalas. A terra seca fazia-lhe comichão na raiz. Queria ser azul. Mas era amarelo. As manchinhas desbotavam-lhe o grito da cor. Sentia-se pequenino naquele jardim imenso. Mas era uma flor e as flores são belas e alegres e felizes e animam o mundo!
E é bom ser um amor perfeito...
Em todo e qualquer jardim!
Até num vaso se sentiria bem, por certo...
Água! Precisava de água! A terra seca quase o matava de sede...
Veio um vento maior e levou-lhe uma pétala.
Um gato distraído passou-lhe ao lado a correr. Livra! Foi por pouco!
E se o gato o pisasse?
Ora, era só um gato, não ia morrer por isso! Talvez amachucar-se um pouco, partir alguma coisa, poderia até murchar um bocadinho...
Ai, que horror! Murchar não! Um amor perfeito não pode murchar!
O que seria de si? Ficaria imperfeito!
Mas... seria mesmo perfeito?
Que dúvida atroz e revoltante! Afinal o que é um amor perfeito? Só uma flor simples e colorida ou uma dúvida humana muito inquietante?
Ai!
O amor perfeito amarelo com manchinhas escuras teve que parar para pensar, tornar a parar e tornar a pensar, ao fim de uns momentos conseguiu concluir:

Não há perfeição no amor nem amores imperfeitos. 

domingo, 26 de março de 2017

Cautelas



Abriram-se as asas de um novo sonho...
Fecharam-se angústias do que se passou.
Elevam-se os olhos rumo ao infinito...
Que venha depressa tudo, tudo e tudo!
Do imaginado ao real vai um saltinho de pés.
Batem-se as asas aquém do precipício porque o equilíbrio pode ser cruel.


sexta-feira, 24 de março de 2017

Os passarinhos e um inquérito

Fez-se um céu negro de repente, caiu granizo e ventou. Ficou tudo branco, gelado, frio, de arrepiar...
Dois passarinhos  tinham parado de cantar na árvore da frente.
Ficaram encolhidos, um juntinho ao outro, escondiam-se do mau tempo no meio do entrelaçado dos ramos da árvore.
Fiquei a vê-los da janela enquanto o céu despejava calhaus de gelo...
Eram tão lindos os passarinhos! Seriam um casal? Que pena vê-los assim tão vulneráveis quando cantavam tão bem ainda há pouquinho!
Seria a casa deles aquela árvore? Ou só vinham passear e ali pousaram?
O granizo parou, deu lugar a bátegas de água incessantes, que faziam rios no meio das pedras de gelo. 
A água do beiral parecia querer furar o chão que tinha debaixo de si. 
O vento agitou a árvore já despenteada pela chuva. Deixei de ver os passarinhos, enquanto a chuva dobrava de intensidade. Estariam mais escondidos? Caídos no chão? 
O canto do telefone assustou-me, entretanto. Fui atende-lo, trouxe-o para a janela e fui respondendo a um inquérito algo maçador. Costumo fazê-lo com gosto sempre imaginando que estou a ajudar quem me liga porque foi o trabalho que arranjou...
Mas aquele inquérito depressa começou a incomodar a minha paciência. Fui respondendo quase à toa e contrafeita, quando me animei por avistar de novo os passarinhos. Ah, tinham-se escondido melhor! E conforme a chuva mingou e até parar foram abrindo as asas, sacudindo as penas e dando saltinhos de ramo em ramo. "Olá passarinhos!" "Ainda bem que estão aí!" "Estou feliz por estarem bem!"
Os meus pensamentos atrapalharam um pouco as respostas ao inquérito, o meu interlocutor repetiu duas vezes a mesma pergunta. Respondi que não sabia, sem querer pensar mais na resposta. Ele insistiu, não satisfeito. Então?! Eu não podia não saber?
Num esforço de concentração procurei justificar-me a mim própria. Sim, estavam a incomodar-me mas eu costumava responder a tudo, só para ser gentil, só para me sentir útil a quem só conseguira aquele tipo de trabalho! Mas o meu interlocutor falou-me de distrações, maçou-me com repetições, moeu-me a minha paciência, deixou-se de gentilezas, começou a acelerar as perguntas, privou-me do tempo de pensar nas respostas e mudou o tom de voz radiofónico para um mais expedito na vã tentativa de terminar o inquérito.
O Sol foi rompendo em entremeios de nuvens negras. Fez brilhar o chão molhado. Deu mais cor ao mundo, tingido de branco pelo granizo.
Os passarinhos voaram para onde lhes apeteceu e a voz incomodativa daquele interminável inquérito deixou de me aborrecer porque se quebrou a ligação.
Minutos volvidos torna a cantar o telefone. Hesito. Atendo... Não atendo...
Atendi. E aquela voz maçadora tem o desplante de se queixar de que eu tinha desligado!
A raiva ou fúria ou sei lá que era não me deixou falar. Emudecida, fiquei de repente contente da vida quando vi que os passarinhos voltavam para a árvore. Sorri comigo própria e desliguei o telefone.

pensamento #4

O coração tem duas aurículas, dois ventrículos... e fica tão feliz com pequeninas coisas!

terça-feira, 21 de março de 2017

tempo

Numa esquina da vida, empedrada a granito rosa, o luxo do tempo, pouco mundano, sorria-me do alto da sua soberania. Queria usufruí-lo, aproveitar-lhe todos os milionésimos de segundo mas não podia abusar dele, da sua preciosa raridade, extemporânea e quase irracional. Optei por lhe sorrir mas o meu cativante sorriso não cativou o tempo, deixou de ser sedutor o meu sorriso... porque o tempo não se deixa conquistar, tem que ser ele a conquistar-nos para se sentir feliz e deixar-nos ser...
Mas não desisti, tornei ao ataque, perguntei-lhe porque só me aparecia em alturas inusitadas. Ele pensou um bocadinho, tornou a sorrir, ficou ligeiramente atrapalhado e quando finalmente falou disse-me que era assim que tinha que ser porque era esse o seu mistério, aí residia a fé que possuía no mundo e em todos nós, que não consistia em controlar nada nem ninguém mas em fazer-se viver sempre o melhor possível.

domingo, 19 de março de 2017

pensamento #3

A felicidade é proporcional à sua procura. Quem não se esforça por encontrá-la não a vive na medida certa.
Não é só um estado de espírito é mesmo um espírito em estado físico.
Ser feliz não é o contrário de ser infeliz é encontrar em si formas de escapar à infelicidade.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Nem noite nem dia

Às 6 e 30 da manhã de hoje o céu nublado escondia a aurora. Nem dia nem noite, hora de indecisão, o céu pardacento pingou no lajedo gotinhas de vida do dia a nascer ou gotinhas de luto da noite a morrer. Pareciam lágrimas, felizes ou tristes, duma grata candura e simplicidade. Dir-se-ia que vinham ao encontro de nós mas tudo indicava que fugiam do céu. Porque o céu cinzento estava num dilema de ser noite ou dia, de abrir os olhos ou semicerrá-los e de manter as nuvens ou as mandar para longe daquele lajedo.
Veio brisa leve que brincou com as gotas, as árvores mexiam num ritmo dolente, o céu foi clareando muito de mansinho e a dança das gotas ia evoluindo quase em rodopio enquanto as mais cansadas iam pintalgando todo o lajedo.
Aquele cheiro bom de terra molhada demorou a sentir-se porque as gotas dançavam, não queriam cair ou então despediam-se da noite arredia.
Mas não tardou que a chuva parasse, contendo a dança calma e linda das gotas.
Sentiu-se aumentar a brisa, o ar refrescou...
E nasceu o dia.

terça-feira, 14 de março de 2017

Primavera

Fui ao campo visitar as papoilas. Estavam lindas e rubras a ondear ao vento.
Uma sebe de liláses chamou-me docemente numa curva do caminho. Parei a olhá-los. Ainda bem que me chamaram porque ia distraída... Que lindos são os liláses!
E as açucenas, vizinhas do muro da frente! Cheirosas e matreiras, escondidas com a folhagem.
Um pouco mais à frente sorriam-me as camélias cor de vinho. Assim vistas de longe pareciam de veludo.
Gerânios e rododendros, prímulas e margaridas, tulipas e cravinas, todas me sorriam nos jardins das vivendas.
Ah que bom ser quase Primavera!
Ah que bom eu ser joaninha!  

domingo, 12 de março de 2017

Fim de dia


                                 ( https://pordosolnoarpoador.wordpress.com/)

Na calma destemperada de um fim de dia nem quente nem frio, em que um casaco fino ora é de mais ora é de menos, contemplemos o pôr de Sol majestoso, esse sim na medida certa.
Se o horizonte é mar, o Sol faz-se em dois refletido nele, enquanto não se põe a brincar às escondidas com a nossa atenção. Se terra for, coitado do Sol que o engole o vazio! Bom, pelo menos não se afoga no firmamento marítimo... Será que o Sol sabe nadar?  


sábado, 11 de março de 2017

Sem fuga

Com quantos paus se faz...
Não, não quero canoas, jangadas ou barcos, a minha doca é seca e a maré baixou. Se fosse até  à água mal molharia os pés, nadar é fugir e pouca água não deixa.
Se vier enxurrada, tormenta e mar fico a contar os paus...
Mas não irei navegar.
Atraquei aqui sem barquinho, não tenho âncora, só paus.
Levanta-se um vento, bom para velejar, mas não tenho vela nem barco, só paus.
O Sol já se põe lá longe e tão perto, ajuda-me a contar...
Com quantos paus se faz uma cerca à volta de nós?

No fim do arco-íris

Apetece-me ir além do presente, aquém do futuro, até ao fim do arco-íris.
Não sei o caminho mas hei-de encontrar-lhe o mistério.
Algures na vida perdida consegui encontrar o que não se passou, talvez agora descubra que parte do mistério compõe o fascínio.
Mesmo que não saia de onde estou espero chegar rapidamente.
Urge o sonho polido de saber o que quero sem o reconhecer.

pensamento #2 - sem

Sem tempo, sem meios, sem fins, sem palavras, sem ninguém...
Estamos na era do "sem".
Acredita quem conseguir viver "sem" conteúdo.

sexta-feira, 10 de março de 2017

pensamento #1

Nada nem ninguém importa se em nós não houver guarida. Vamos abrir portas, janelas, medos, dúvidas e esperanças.
E venha tudo.

No fundo do copo

No fundo do copo espera-nos a calma da morte da sede, do vício ou do sim por acaso.
No fundo do copo espreita a tentação de quem o segura.
No fundo do copo diz-se que sim abanando a cabeça.
No fundo do copo pensa-se que não enquanto se torna a enche-lo.
No fundo do copo que matou a sede mora só a felicidade.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Paz, sossego e calma e um gato vadio

Um avião cruza o céu e fico a vê-lo desaparecer por detrás de uns prédios.
Foi baixo o som, fugaz a imagem, um gato vadio acompanha-me no virar de cabeça.
Há um turbilhão de atropelos na rua de baixo, gente a pé em várias direcções e carros a apitar; semáforos avariados, todos amarelos, parecem ser o âmago da confusão. Será? Ou o mundo está todo ele uma enorme confusão sem sabermos porquê?
Aqui onde estou impera o sossego. Espreito tudo de longe sem me deixar envolver. Eu e o gato vadio, malhado de cinza e branco.
Um pardal pipia numa árvore próxima. Salta de ramo em ramo, desafia o equilibro, fico a olhá-lo, sem grande interesse. Eu e o gato vadio, malhado de cinza e branco que tem uma pata branca.
No desenrolar da confusão da rua de baixo, aparece a polícia para controlar o trânsito. Fico a olhar, distraída. Eu e o gato vadio, malhado de cinza e branco, que tem uma pata branca e uma manchinha mais clara bem no meio do focinho.
É bonito o gato vadio!
A minha paz também, enquanto a confusão reina na rua de baixo.
A cidade desnivelada consegue-me esta calma. Vejo, não ligo, olho mas nem penso. Da minha rua mais alta que a da confusão. Não faço parte, sossego e descanso. Eu e o gato vadio, malhado de cinza e branco, que tem uma pata branca, uma manchinha mais clara bem no meio do focinho e que olha para mim como se conhecesse o mistério da vida.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Sonhar que se morre e viver sonhando

Sonhei que morri.
Acordei feliz por ter sido só um pesadelo.
Há sonhos "dos outros" (aqueles diurnos em que nem pestanejamos) que se tornam pesadelos sem sabermos porquê.
Talvez que os sonhos precisem de alimento salutar e inspirado. Penso que é isso, carecem sobretudo de inspiração, imaginação e aquele toque subtil de coisa nenhuma mas que faz toda a diferença. Pode ser só uma predisposição, um desejo avassalador ou até uma ânsia de aventura, tudo serve para nos fazer sonhar porque "o sonho comanda a vida" segundo António Gedeão.