domingo, 26 de março de 2017

Cautelas



Abriram-se as asas de um novo sonho...
Fecharam-se angústias do que se passou.
Elevam-se os olhos rumo ao infinito...
Que venha depressa tudo, tudo e tudo!
Do imaginado ao real vai um saltinho de pés.
Batem-se as asas aquém do precipício porque o equilíbrio pode ser cruel.


sexta-feira, 24 de março de 2017

Os passarinhos e um inquérito

Fez-se um céu negro de repente, caiu granizo e ventou. Ficou tudo branco, gelado, frio, de arrepiar...
Dois passarinhos  tinham parado de cantar na árvore da frente.
Ficaram encolhidos, um juntinho ao outro, escondiam-se do mau tempo no meio do entrelaçado dos ramos da árvore.
Fiquei a vê-los da janela enquanto o céu despejava calhaus de gelo...
Eram tão lindos os passarinhos! Seriam um casal? Que pena vê-los assim tão vulneráveis quando cantavam tão bem ainda há pouquinho!
Seria a casa deles aquela árvore? Ou só vinham passear e ali pousaram?
O granizo parou, deu lugar a bátegas de água incessantes, que faziam rios no meio das pedras de gelo. 
A água do beiral parecia querer furar o chão que tinha debaixo de si. 
O vento agitou a árvore já despenteada pela chuva. Deixei de ver os passarinhos, enquanto a chuva dobrava de intensidade. Estariam mais escondidos? Caídos no chão? 
O canto do telefone assustou-me, entretanto. Fui atende-lo, trouxe-o para a janela e fui respondendo a um inquérito algo maçador. Costumo fazê-lo com gosto sempre imaginando que estou a ajudar quem me liga porque foi o trabalho que arranjou...
Mas aquele inquérito depressa começou a incomodar a minha paciência. Fui respondendo quase à toa e contrafeita, quando me animei por avistar de novo os passarinhos. Ah, tinham-se escondido melhor! E conforme a chuva mingou e até parar foram abrindo as asas, sacudindo as penas e dando saltinhos de ramo em ramo. "Olá passarinhos!" "Ainda bem que estão aí!" "Estou feliz por estarem bem!"
Os meus pensamentos atrapalharam um pouco as respostas ao inquérito, o meu interlocutor repetiu duas vezes a mesma pergunta. Respondi que não sabia, sem querer pensar mais na resposta. Ele insistiu, não satisfeito. Então?! Eu não podia não saber?
Num esforço de concentração procurei justificar-me a mim própria. Sim, estavam a incomodar-me mas eu costumava responder a tudo, só para ser gentil, só para me sentir útil a quem só conseguira aquele tipo de trabalho! Mas o meu interlocutor falou-me de distrações, maçou-me com repetições, moeu-me a minha paciência, deixou-se de gentilezas, começou a acelerar as perguntas, privou-me do tempo de pensar nas respostas e mudou o tom de voz radiofónico para um mais expedito na vã tentativa de terminar o inquérito.
O Sol foi rompendo em entremeios de nuvens negras. Fez brilhar o chão molhado. Deu mais cor ao mundo, tingido de branco pelo granizo.
Os passarinhos voaram para onde lhes apeteceu e a voz incomodativa daquele interminável inquérito deixou de me aborrecer porque se quebrou a ligação.
Minutos volvidos torna a cantar o telefone. Hesito. Atendo... Não atendo...
Atendi. E aquela voz maçadora tem o desplante de se queixar de que eu tinha desligado!
A raiva ou fúria ou sei lá que era não me deixou falar. Emudecida, fiquei de repente contente da vida quando vi que os passarinhos voltavam para a árvore. Sorri comigo própria e desliguei o telefone.

pensamento #4

O coração tem duas aurículas, dois ventrículos... e fica tão feliz com pequeninas coisas!

terça-feira, 21 de março de 2017

tempo

Numa esquina da vida, empedrada a granito rosa, o luxo do tempo, pouco mundano, sorria-me do alto da sua soberania. Queria usufruí-lo, aproveitar-lhe todos os milionésimos de segundo mas não podia abusar dele, da sua preciosa raridade, extemporânea e quase irracional. Optei por lhe sorrir mas o meu cativante sorriso não cativou o tempo, deixou de ser sedutor o meu sorriso... porque o tempo não se deixa conquistar, tem que ser ele a conquistar-nos para se sentir feliz e deixar-nos ser...
Mas não desisti, tornei ao ataque, perguntei-lhe porque só me aparecia em alturas inusitadas. Ele pensou um bocadinho, tornou a sorrir, ficou ligeiramente atrapalhado e quando finalmente falou disse-me que era assim que tinha que ser porque era esse o seu mistério, aí residia a fé que possuía no mundo e em todos nós, que não consistia em controlar nada nem ninguém mas em fazer-se viver sempre o melhor possível.

domingo, 19 de março de 2017

pensamento #3

A felicidade é proporcional à sua procura. Quem não se esforça por encontrá-la não a vive na medida certa.
Não é só um estado de espírito é mesmo um espírito em estado físico.
Ser feliz não é o contrário de ser infeliz é encontrar em si formas de escapar à infelicidade.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Nem noite nem dia

Às 6 e 30 da manhã de hoje o céu nublado escondia a aurora. Nem dia nem noite, hora de indecisão, o céu pardacento pingou no lajedo gotinhas de vida do dia a nascer ou gotinhas de luto da noite a morrer. Pareciam lágrimas, felizes ou tristes, duma grata candura e simplicidade. Dir-se-ia que vinham ao encontro de nós mas tudo indicava que fugiam do céu. Porque o céu cinzento estava num dilema de ser noite ou dia, de abrir os olhos ou semicerrá-los e de manter as nuvens ou as mandar para longe daquele lajedo.
Veio brisa leve que brincou com as gotas, as árvores mexiam num ritmo dolente, o céu foi clareando muito de mansinho e a dança das gotas ia evoluindo quase em rodopio enquanto as mais cansadas iam pintalgando todo o lajedo.
Aquele cheiro bom de terra molhada demorou a sentir-se porque as gotas dançavam, não queriam cair ou então despediam-se da noite arredia.
Mas não tardou que a chuva parasse, contendo a dança calma e linda das gotas.
Sentiu-se aumentar a brisa, o ar refrescou...
E nasceu o dia.

terça-feira, 14 de março de 2017

Primavera

Fui ao campo visitar as papoilas. Estavam lindas e rubras a ondear ao vento.
Uma sebe de liláses chamou-me docemente numa curva do caminho. Parei a olhá-los. Ainda bem que me chamaram porque ia distraída... Que lindos são os liláses!
E as açucenas, vizinhas do muro da frente! Cheirosas e matreiras, escondidas com a folhagem.
Um pouco mais à frente sorriam-me as camélias cor de vinho. Assim vistas de longe pareciam de veludo.
Gerânios e rododendros, prímulas e margaridas, tulipas e cravinas, todas me sorriam nos jardins das vivendas.
Ah que bom ser quase Primavera!
Ah que bom eu ser joaninha!